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MICHAEL GIRA
( SWANS / Angels of Light ) |
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Critica a «Solo Recordings at Home» por Mark Weddle:
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Critica a «What We Did» por Daphne Carr:
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While touring with Sonic Youth in the mid-80s, Thurston Moore commented that Swans were louder and more abrasive than they could ever be -- that they rather scared Moore & Co. and the rest of the audience. But while Moore's ensemble produced a linear progression of art-rock through the 80s and 90s, Gira's band traveled less predictable paths (from an MCA-fronted cover of Joy Division's "Love Will Tear Us Apart" to the ambient side project Skin, which also featured fellow Swan, Jarboe) before finally disbanding in 1997 for the pursuit of separate interests. With the formation of Young God Records and the Angels of Light, Michael Gira's full-time, post-Swans musical project, a new era of the gloom-artist's career has come into view. Angels of Light have produced some of the most beautiful dark-folk on this side of the Atlantic, recalling more the manic stylings of Current 93 and Hood than the mid-90s phenomenon of depraved, unraveling folk on our shores (see Will Oldham, et al). Unsurprising, then, that Gira is still largely viewed as a goth artist, a label that somehow relegates him to the Projekt ghetto even as bands like the Faint fall in the public eye as "new wave" while uttering the most shopping mall-friendly witticisms this side of Trent Reznor. So it's a nice to see that What We Did comes labeled a "pop" album, with Dan Matz from Windsor for the Derby writing a majority of the lyrics and lending his Sam Prekop-inflected voice to Gira's two-chord symphonies. If it weren't for the trademark Young God packaging (digipack w/solid san-serif header and footer), it could easily pass for an early Drag City or Secretly Canadian release. Opener "Packing the Locks" hardly introduces so much as spills out the album with simple guitar lines and Matz's plaintive vocals withdrawing the jazz-turn affectations of Prekop and leaving the sensual breathiness. "Is/Was" takes up this slack, turning a borrowed blues melody (a la early Spiritualized) and stretching its pattern over long measures. Somewhere, the chorus ambiguously drifts in -- a trick employed often in the Gira camp -- as Matz's cigarette-torn vocals mesh with the back-up to form a series of drone lullabies. This reaches its peak on "Sunflower," which mutates from oft-repeated chorus into chiming and scraping bliss-out in a way that mirrors the best moments of Songs: Ohia's Ghost Tropic. The closing track, "The Brightest Star," almost sounds like a contemplative Ladybug Transistor slow-jam, all analog warmth and sweet, soaring harmonies buried deep in the mix. It's definitely pop -- and Matz's tendency to avoid emulating Gira's grim wails contributes to its accessibility -- but dirty pop (something N'Sync was never too convincing about). The rewards of this record aren't reaped through immediate digestibility, but through repeated suggestion. Still, this is by far the most palatable of Gira's growing mass of output and an indication of continued innovation in collaborating with those whose moods, ideas, and melodies augment his own dark brilliance. |
Artigo promocional escrito por José Pacheco:
Michael Gira
«O Grande Aniquilador»
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«... we may forget that a written word is an image and that
written words are images in sequence that is to say moving pictures.
So any hieroglyphic sequence gives us an immediate working
definition for spoken words. Spoken words are verbal units that refer
to this pictorial sequence. And what then is the written word? My
basis theory is that the written word was literally a virus that made
spoken word possible. The word has not been recognised as a virus
because it has achieved a state of stable symbiosis with the
host...»
William S. Burroughs in «Feedback from Watergate to the Garden of Eden» |
Perfilar com exactidão os contornos da carreira e do resultado
artístico dos mais de vinte anos de actividade de uma personagem
tão prolífica como MICHAEL GIRA é uma
tarefa quase impossível.
Situamo-lo em primeiro lugar em Los Angeles, cidade nada propicia
às inquietações artísticas do nosso
protagonista, onde escreve alguns artigos para a revista Slash
e forma parte da, segundo ele "estúpida banda punk",
The Little Cripples. Passado pouco tempo, farto da falta de
perspectivas que as experiências musicais em curso lhe
possibilitam, decide mudar-se para Nova Iorque.
Numa primeira fase a cidade não lhe agrada completamente, pois
encontra-a "cheia de cimento e vidro", tendo como maior defeito o
possuir uma tão grande quantidade de pessoas e estar vazia de
ideias novas no referente à música, que era precisamente
o que ele procurava.
Tudo isto sucede em 1980, e apesar da situação em menos
de dois anos alia-se a dois jovens que sentem a mesma necessidade de
libertar toda a força e ferocidade interior. Michael ergue-se
como o líder indiscutível de um grupo que ultrapassa os
limites do convencional, que transmite o conceito mais duro e extremo
da nossa essência mais primária, que é essa fera
indomável que ninguém se atreve a mostrar. Apesar de tudo
isso, o grupo e baptizado como SWANS.
Gira contribui com a voz e o baixo, Jonathan Kane com a bateria,
Bob Pezzola com a guitarra e Daniel Galli-Duani com o
saxofone. Em 1982 dão à luz quatro temas (conhecidos como
"Swans E.P.") plenos de força musical e expressiva.
Curiosamente esta primeira gravação possui mais ritmo e
mais estrutura musical que a maioria dos trabalhos subsequentes do
grupo, como testemunha, por exemplo, o inigualável tema,
"Speak".
Antes disso em colaboração com Jonathan Kane
já havia publicado o E.P. "Labor" sob o nome de
Circus Mort, que muitos consideram um estado embrionário
do que viria a ser os Swans.
No ano seguinte editam o seu primeiro LP "Filth", desta vez sem
Daniel nem Bob, que são substituídos por duas figuras
que se revelariam de grande importância, Roli Mosimann
(que de futuro assumirá um papel importante nos Foetus) e
Norman Westberg (que virá a trabalhar com pessoas da
importância de Lydia Lunch, de cuja
colaboração destaca o famoso tema "Stumbo"), sem
menosprezar a contribuição do último cisne
Harry Crosby. Agora sim, agora é quando nos sentimos
afogados pela densa lentidão dos ritmos dos Swans. As letras
remetem para o conceito de poder, e por contradição,
à submissão, à superioridade dos fortes
sobre os débeis, e a como os primeiros impõem a vontade
e ideias pela violência, não necessariamente
física... A música que os Swans criam possui uma tal
força que não dá opções,
encurralando-nos sem saída possível.
Em Novembro de 1982 os Swans tocam ao vivo com os Sonic Youth
na Savage Blunder Tour; no ano seguinte Gira escreve a letra
de "The world looks red", editada em "Confusion is Sex", segundo
album da banda amiga, e os Swans incluem o tema "Weakling" na
compilação "Speed Trials" da editora Homestead
Records, no qual também participam os Sonic Youth e a
Lydia Lunch.
É importante contar com Daniel Gira, irmão de
Michael, que colabora desde primeira instância com o grupo,
por vezes na produção e arranjos, e inclusivamente
como membro activo em alguns albuns e concertos.
Estávamos em 1984, e as colaborações para o novo
album acentuavam-se, Lee Ronaldo (Sonic Youth) tira as
fotografias para o disco e Jim Thirwell ou Clint Ruin,
como queiramos chamá-lo, participa como musico adicional. Um
dado relevante é que por esta altura os sons dos Swans
começam a fazer-se ouvir na Europa. Assinam pela editora
K.422, filial da Some Bizzare, na qual figuram outros
artistas malditos Europeus como os Coil, os Einstürzende
Neubauten, os Test Department,... Assim é editado o
terceiro vinyl do grupo sob o nome de "Cop". Este E.P.
supõe a confirmação da postura adoptada nas duas
publicações anteriores. Uma vez mais a música
é pesada, forte, com ritmos lentos e contundentes, letras
obscenas perspectivando a obtenção do poder, do
controlo,... O começo, com "Half Life", não deixa lugar
a dúvidas: é drástico, não podia ser
melhor!
No mesmo ano os Swans publicam outro E.P., "Young God". A
temática é de novo similar, o prazer físico do amo
contra a vontade do submetido, a dominação do escravo,
a marcação do território... tomemos como exemplo
o tema "Raping A Slave". No final do ano, princípios de 1985,
é editado o primeiro album ao vivo, o não oficial
duplo LP com o incrível nome de "Public Castration Is a Good
Idea", que inclui temas antigos juntamente a outros de
publicação futura. Data desta altura um episódio
curioso, durante uma actuação do grupo na
Suíça, o jovem engenheiro de som ficou tão
impressionado com o que viu que tomou a firme decisão de formar
um grupo e fazer também ele música. O jovem chamava-se
Franz Treichler e o grupo que viria a formar chama-se
Young Gods, devido ao nome do E.P. dos Swans, sendo que
Roli Mosimann produziu alguns dos primeiros trabalhos do grupo.
A estrutura musical do grupo começa então a mudar e nem
todos aceitam essa mudança. Crosby e, o aparentemente
imprescindível, Mosimann abandonam a banda, fundando este
último juntamente com Clint Ruin os Wiseblood. Estes
são substituídos por vários músicos, entre
os quais destacam Ted Parsons e Ronaldo Gonzalez.
Gira participa na compilação "A Diamond Hidden in the
Mouth of a Corpse", com o tema "Game" (onde recita a letra de "Your
Game" de "Body to Body, Job to Job"). A compilação
inclui ainda artistas como os Coil, Diamanda Galás, Sonic
Youth, William S. Burroughs,... Publica também um
spoken word com a Lydia Lunch, "Hard Rocks", versando
principalmente temas urbanos.
Numa fase tão produtiva, Gira sente a necessidade de canalizar
a sua ânsia criativa, dotando as suas canções de
melodias mais cuidadas; decide assim atender a aspectos da
composição que até agora eludira. Os temas
possuem agora uma estrutura mais firme, as letras são mais
meditadas, não tão espontâneas, e dá-se uma
novidade crucial: o totalitarismo criativo de Gira é derrubado
pela aparição da sua musa, a mágica Jarboe,
que de momento apenas contribui com a voz e em algumas performances.
A entrada de Jarboe para a formação dos Swans coincide
com o encetar de uma nova fase musical do grupo, muito mais cuidada,
com um cariz mais experimental, conceptual, ambiguo, sensual,...
o poder fica totalmente de fora.
O primeiro fruto da nova formação dos Swans é o
maxi "Time Is Money", que inclui para além de duas
versões do tema homónimo, o tema "Sealed In Skin". Este
maxi supõe o primeiro sinal da mudança na carreira
musical do grupo. Ainda em 1986, publicam o novo LP, intitulado
"Greed" e o maxi "A Screw" (do qual gravam o muito pouco
conhecido video "A Long Screw"). Como assinalado acima,
já se notam alguns rasgos diferentes, a asfixiante
lentidão rítmica, densa e envolvente, transforma-se na
criação de temas mais rápidos, mas que ainda assim
nos influenciam quase da mesma forma e nos inspiram quase os mesmos
impulsos e estados anímicos de outrora. Com o final do ano vemos
ainda surgir um novo album, "Holy Money", que juntamente com o
album anterior e os maxis correspondentes forma um conjunto intimamente
ligado quer pelas novidades musicais que os quatro partilham, quer pela
temática das letras, sempre em relação à
obtenção do poder (monetário neste caso), quer em
relação às capas (todas utilizam o símbolo
do dólar). Quase não é necessário dizer que
Gira aponta que o verdadeiro poder se obtém pelo dinheiro:
pode-se comprar objectos, sexo, até as pessoas,... Continuam a
dar concertos tanto nos Estados Unidos como na Europa, dos quais,
oficialmente foi editado um, chamado "Real Love", que inclui
temas do quarteto discográfico anteriormente mencionado. Os
concertos deixam marcas indeléveis na audiência que fica
profundamente impressionada com um Gira descomposto, semi-nu e
descalço, agitando-se compulsivamente, dando um
espectáculo brutal onde teatraliza todos os conceitos extremos
que até então a música do grupo versa.
Em 1987 surge um fenómeno maravilhoso, ou como queira chamar-lhe
quem melhor possa qualificar um trabalho como "Children of God".
Para além disso a formação já se encontra
consolidada: Gira, Jarboe, Westberg, Parsons e Algis Kizys
(colaborador habitual de Glen Branca) são os criadores
de um album que na minha modesta opinião é irrepetivel.
"Children of God" fica de fora de qualquer época ou
mudança musical dentro dos Swans. A heterogeneidade de
conceitos, a mistura de estilos e formas de entender a música,
tornam-no ainda, se possível, mais interessante. Temas
tão selvagens e duros como "New Mind" (primeiro e
único maxi do album) ou "Like a Drug" contrastam com os intimos
"Trust Me", "In My Garden" ou "Blackmail", estes dois últimos
cantados angelicalmente por Jarboe, e temas como "Children Of God" ou
"Blood And Honey" que escapam inevitavelmente a qualquer
adjectivação. Depois de publicar mais um album ao vivo,
desta feita com o nome de "Feel Good Now", rompem radicalmente
com esta etapa, trocando a agressividade pela
introspecção.
Com o final das gravações de "Children Of God",
Gira e Jarboe, sentem-se plenos de ideias e de criatividade.
Estão ambos de acordo que o novo universo em
exploração tem pouca relação com
o dos Swans. Nesta altura surge um dos mais interessantes e importantes
projectos paralelos á actividade dos Swans, falamos obviamente
dos SKIN. O motivo fundamental da divisão entre Swans
e Skin, é o total abandono da visceralidade e poder dos Swans
em favor de trabalhos mais serenos, equilibrados e pessoais. Decidem
dar o nome de Skin (pele) devido a que ambos estão convencidos
da importância que este tecido tem para o funcionamento do ser
humano. Consideram-no como mais um orgão, como a
interface entre o interior e o exterior do indivíduo.
Sentem-se atraídos pela sua capacidade de ser estimulada e
reagir perante o frio, a dor, a fricção,... Com a
ajuda de músicos adicionais, que nada têm a ver com os
Swans, gravam o primeiro registro, "Blood, Women, Roses", em
1987. Enquanto neste album a presença de Jarboe se sente como
mais preponderante, no seguinte, de 1988,
"Shame, Humility, Revenge" é Gira que controla as
operações. A música possui maior intensidade,
preenchendo a totalidade do espaço, fazendo fluir
os sentimentos. Destacam-se temas como "Nothing Without
You" que constitui uma das melhores definições de amor
alguma vez escritas, ou "24 Hours" em que Michael faz uso de todas
as suas potencialidades vocais. Por último, em 1990, sob
o nome de The World of Skin editam o fantástico
"Ten Songs for Another World", que como facilmente
poderíamos supor só pelo titulo é quase
indefinível. Agora juntos Gira e Jarboe, fazem um
exercício perfeito de autoconhecimento e de estudo interior,
falando-nos de relações pessoais e dos sentimentos que
estas encerram, e sobretudo das suas vivências.
"Black Eyed Dog" é por ventura o tema que mais chama a
atenção, pela sua imprevisibilidade. Outros temas
a salientar são por exemplo "I'll Go There, Take Me Home",
"Everything For Maria" ou o lindíssimo "Dream Dream". De notar
ainda a magnifica capa plena de detalhe e ironia. Antes deste
último disco havia sido editada a colectânea dos
dois primeiros trabalhos também intitulada
"The World of Skin".
Retomando o caminho dos Swans, chega-se então ao ano de 1988,
em que editam uma versão do clássico dos
Joy Division "Love Will Tear Us Apart", musicalmente
soberba, incluindo uma versão cantado por Gira e outra por
Jarboe. No entanto, novidade das novidades, o tema é
acústico e bastante ritmado, capaz de atrair a todo o tipo de
audiências, tudo isto sob a alçada da editora Mute.
Esta nova mudança de direcção musical afasta
alguns dos fans mais radicais que apelidam o grupo de vendido, no
entanto a maioria sabe reconhecer que é apenas mais uma fase,
em que se pretende cuidar a produção até o mais
mínimo detalhe, e porque não encetar novos caminhos,
reacção natural e necessária a todo o grupo
criativo e talentoso que se preze. É ainda produzido um video
promocional para este tema.
Depois do êxito alcançado com o maxi anterior, surgem em
1989 uns Swans renovados, que para além de Gira, Jarboe e
Westberg inclui uma série de músicos tão
talentosos como Bill Laswell (que também produz o novo
disco), que editam o excelente album "The Burning World". Antes
disso já havia sido editado o single "Saved", de
capa semelhante, com uma fotografia lindíssima de um
Lírio tirada pelo fotografo Robert Mapplethorpe. É
agora tempo de suavidade, de sons relaxantes, e de vozes doces que nos
fazem aprofundar nas letras, que são agora puramente
sentimentais, falando de amor, de solidão, dos sentimentos e dos
medos mais intimos do ser humano. Trata-se de um trabalho muito
homogéneo e de teor principalmente acústico. Temas como
"I Remember Who You Are", "Can't Find My Way Home", ou o ritmado
"Mona Lisa, Mother Earth" são apenas alguns dos muitos a
destacar. Por essa altura editam ainda o maxi limitado para o tema
"Can't Find My Way Home" e no ano seguinte mais um duplo LP
ao vivo, dedicado à digressão de "The Burning World"
chamado "Anonymous Bodies In An Empty Room".
No ano seguinte surge mais um album, "White Light From the Mouth
of Infinity" desta feita. O que primeiro chama a
atenção é a capa, com uma ilustração
do artista Deryk Thomas, que continuará a colaborar com
os Swans em edições futuras. A intensidade musical dos
Swans continua latente após sofrer uma extraordinária
metamorfose que a faz mais compreensível, as
emoções são agora transmitidas de modo mais
enfatizado, simples e claro. Majestosidade é talvez a palavra
que melhor define a nova faceta dos Swans, como facilmente se percebe
em temas como "You Know Nothing" ou "Miracle Of Love", ou já
fora de qualquer esquema anteriormente concebido, o
profundíssimo poder comunicativo e a extrema simplicidade de um
tema como "Love Will Save You" (do qual é
extraído mais um maxi). No final do ano é
ainda publicada uma nova colectânea, a já referenciada
"Body to Body, Job to Job".
No que diz respeito à formação, para
além dos habituais, destaca-se a colaboração de
Clinton Steel, Larry Seven e Adam Jankowsky, e de
uma forma ou outra Daniel Gira, J.G.Thirlwell e Fabio Roberti
(este último principalmente em questões
estéticas).
Chegamos agora à vez de outro dos "grandes". É a vez
de "Love Of Life", album "irmão" de "White Light From the
Mouth of Infinity", que dispõe mais uma vez de uma capa
ilustrada por Deryk Thomas com o mesmo motivo dos "coelhinhos". Mais
uma vez é difícil destacar temas, apenas para mencionar
alguns aqui ficam os nomes de "The Other Side Of The World", um tema de
profundo misticismo, ou "No Cure For The Lonely" (que apenas aparece
na edição em CD), ou ainda o tema homónimo (que
dá nome ao maxi seguinte, que inclui outro versões de
outro dos grandes temas do disco, "Amnesia" que nos fala da
degradação da vida, do meio ambiente, da
política). Os Swans podem ter possuído mais força
mas poucas vezes terão possuído tanta beleza.
Surge agora o inevitável album ao vivo, "Omniscience"
de seu nome, onde é destacável as fantásticas
versões de "Mother's Milk" e "Omnipotent".
Após um longo período em digressão, de algumas
colaborações (destacando-se a com os Pigface
no album "Notes from the Underground"), de algumas
reedições, do album ao vivo "Kill the Child"
e do maxi "Celebrity Lifestyle", eis que em 1995 é
editado "The Great Annihilator". Trabalham desta vez com
Martin Atkins (colaborador habitual de Trent Reznor
e eventual de Genesis P. Orridge), e volta a haver de tudo:
temas frios, temas lentos, temas selvagens, letras tristes, letras
terríveis, violência, melancolia,... Temas como
"I Am The Sun", "Blood Promise", ou "Where Does a Body End"
são inesquecíveis para todos os que algumas vez
escutámos este disco.
Por esta altura vemos surgir o primeiro trabalho em solitário
de Michael Gira, trata-se de "Drainland", que é
etiquetado sob o nome de Swans related Project, e que
dispõe como irmão gémeo o album a solo de
Jarboe "Sacrificial Cake", colaborando ambos nos albuns
um do outro respectivamente. O que destaca deste album é o
intimismo com que todos os temas são abordados. A
produção ficou a cargo de Bill Reiflin (outro
dos colaboradores habituais dos Swans).
O ano de 1996 assinala o ano terminal do projecto Swans, depois
da edição do MCD "Die Tur Ist Zu" de cuja
sessão de gravação viria a surgir também
o album duplo "Soundtracks for the Blind". É
difícil falar de um disco como "Soundtracks for the Blind" sem
parecer tendencioso. Basta dizer que por mais do que uma vez o ouvi
apelidar do melhor disco da década. Trata-se de um disco
grandioso, pleno de intensidade e dramatismo, no qual se incluem
temas instrumentais, temas ao vivo, sons electrónicos, baladas,
narrações, temas épicos,... Temas como
"Helpless Child" com a sua poderosa mistura de extrema
desolação e coragosa afirmação de
vitalidade, o tocante "How They Suffer" que contém um
monólogo do pai de Gira sobre a perda de visão,
"The Sound" como cerca de 13 minutos de esplendor sónico,
o excelente instrumental "Blood Section",... Simplesmente
fantástico!
Desde a edição da opus final dos Swans, surgiram ainda
o E.P. "Failure", o single "I Am the Sun", o duplo
CD ao vivo "Swans Are Dead", a compilação
"Various Failures" e uma série de
reedições (das quais destaco a facto de Gira mudar
frequentemente o alinhamento, remisturando, subtraindo ou acrescentando
temas, demonstrando mais uma vez o seu perfeccionismo e capacidade
criadora).
Mas se o natural medo se instalou entre os fans com a
separação do grupo, rapidamente os medos se
mostraram infundados, pois quer a solo, quer com os seus mais
recentes projectos Michael Gira tem continuado a produzir obras
de arte de indubitável valor.
Comecemos pelo trabalho literário de Gira. Para além
de numerosas contribuições para revistas e
fanzines, Gira publica em 1994 o seu primeiro livro
"The Consumer". O livro é uma colecção de
pequenas histórias com títulos tão eloquentes como
"Why I Ate My Wife", ou "The Young Man Who Hid His Body Inside
A Horse, or, My Vulvic Los Angeles", ou ainda "Raping A Slave",
e assim até contar o número de quarenta e sete
contos, que variam em dimensão desde dezoito páginas
até nove frases. A respeito do livro Nick Cave disse:
"This is repulsive writing. Brilliant, disciplined and repulsive
writing...". Com base neste livro viria a publicar em 1997
o spoken word "The Somniloquist". Ainda no decorrer
de 1994, participa no livro de homenagem a H.P.Lovecraft
intitulado "The Starry Wisdom: A Tribute to H.P. Lovecraft"
ao lado de nomes como J.G. Ballard, William S. Burroughs,
Alan Moore ou Robert M. Price.
Em 1998, inicia as operações de um novo projecto,
os Body Lovers, com a edição de
"Number One of Three" (dos quais os outros dois ainda
não viram a luz) contando com a ajuda dos já
conhecidos Jarboe, Bill Rieflin ou Norman Westberg e de
uma quantidade de novos colaboradores tais como Mika Vainio ou
Kris Force. O disco é maioritariamente
instrumental e cobre uma enorme gama de sonoridades, desde o
drone, a sonoridades mais ambientais,... De salientar
também o trabalho gráfico da artista
Nicole Boitos. Como complemento a este disco surge ainda o
"irmão bastardo" com uma sonoridade bastante mais
experimental, harsh, quase noise intitulado
"Body Haters".
Chegados a 1999, encontramos o limitado "Benefit CD - Jarboe
Emergency Medical Fund" gravado ao vivo no Tonic
em Nova Iorque (local onde é habitual ver actuar nomes
como Current Ninety Three, John Zorn,
Ikue Mori, Elysian Fields,...)
e que tem como objectivo criar um fundo de apoio para a
recuperação de Jarboe, que no final do ano
anterior sofrera um grave acidente. Este ano vê surgir ainda
o último projecto de Gira, os Angels Of Light.
Este projecto aparece como a continuação natural
do trabalho desenvolvido com os Swans. Os dois discos publicados
até à data "New Mother", de 1999, e
"How I Loved You", de 2001, são duas
demonstrações do vigor criativo de Gira, tendo o
segundo sido aclamado pela critica como um dos melhores discos
do ano.
Finalmente resta-nos falar dos dois mais recentes trabalhos
discográficos de Gira, o limitado "Solo Recordings at
Home" e a colaboração com Dan Matz sob
o titulo de "What We Did". Enquanto que o primeiro se
trata de uma produção caseira (como o nome indica)
em que a produção foi descurada em detrimento de uma
maior espontaneidade, sendo dirigido especialmente para fans
(não é à toa que se trata de um CDR apenas
disponível via mailorder), o segundo é um
disco mais cuidado utilizando uma panóplia de instrumentos que
vão das guitarras acústicas e eléctricas,
ao baixo, vários órgãos, piano, sintetizador,
diversos tipos de percussão, harmónica, banjo, etc...
Fazendo-nos lembrar por vezes as composições
do final de carreira dos Swans.
Paralelamente ao seu trabalho como autor, nos últimos tempos
dedicou-se também a tarefas de produção,
dedicando-se em especial às bandas a editar pela sua
Young God Records, tais como os Flux Information
Sciences, os Calla ou David Coulter.
Eis que agora, mais do vinte anos passados sob o encetar da sua
carreia artística Michael Gira, vem até
Portugal para o seu primeiro concerto em terras Lusas.
Traz na bagagem os mais recentes trabalhos, mas promete revisitar
alguns dos temas mais emblemáticos da sua longa carreira.
Certamente um concerto a não perder!
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Última actualização: Terça-feira, 12 de Fevereiro de 2002