MICHAEL GIRA
( SWANS / Angels of Light )
      
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Critica a «Solo Recordings at Home» por Mark Weddle:

At the heart of much of Michael Gira's songs with SWANS and The Angels of Light is the bare essence of Gira, simply the voice and guitar. On this Young God Records web site exclusive, that's about all you get. Recorded alone at home, often as they were written, the 13 songs are new save for 2 SWANS reworkings ("Love Will Save You", "Remember Who You Are"), a fully orchestrated studio leftover from the first Angel's album sessions ("God's Servant", previously released on the "Praise Your Name" 7") and a live performance at Tonic NYC ("Irish Queen"). Gira unabashedly intones to the basic, often quiet, accompaniment of his acoustic guitar plucks and strums. The sound is, somewhat surprisingly, full, rich and complete. But then again, it's not a surprise if you've ever heard or seen Gira perform solo as I have, his emotional involvement with each song transcending the need for instrumental adornment. Simple and simply perfect. Lyrically Gira draws upon many of his trademark subjects: love, longing, loss, sex, betrayal and bitterness, as well as the influence of artists and authors (Madison Smartt Bell, Paul Theraux). The disc is signed and comes in a heavy vinyl folder with lyric sheet and self portrait cover assembled by Gira.

      
Critica a «What We Did» por Daphne Carr:

A while ago I did this transcription of an Alan Licht interview where he talked about "the old days" and how New York City used to be dangerous, ugly, and full of vagrants, and therefore, also abound with strange and dark magic. In that city, so long over-run by snap-cap glamour kids with dad's Swiss bank account fueling their shoddy-art dreams, Michael Gira was a prince. His was mood unpredictable, his art was both serious and seriously disturbing, and it was either with extreme ecstasy or displeasure that audiences witnessed the violence, sound collage and glass-shattering vocals of his then-band Swans.
While touring with Sonic Youth in the mid-80s, Thurston Moore commented that Swans were louder and more abrasive than they could ever be -- that they rather scared Moore & Co. and the rest of the audience. But while Moore's ensemble produced a linear progression of art-rock through the 80s and 90s, Gira's band traveled less predictable paths (from an MCA-fronted cover of Joy Division's "Love Will Tear Us Apart" to the ambient side project Skin, which also featured fellow Swan, Jarboe) before finally disbanding in 1997 for the pursuit of separate interests.
With the formation of Young God Records and the Angels of Light, Michael Gira's full-time, post-Swans musical project, a new era of the gloom-artist's career has come into view. Angels of Light have produced some of the most beautiful dark-folk on this side of the Atlantic, recalling more the manic stylings of Current 93 and Hood than the mid-90s phenomenon of depraved, unraveling folk on our shores (see Will Oldham, et al).
Unsurprising, then, that Gira is still largely viewed as a goth artist, a label that somehow relegates him to the Projekt ghetto even as bands like the Faint fall in the public eye as "new wave" while uttering the most shopping mall-friendly witticisms this side of Trent Reznor. So it's a nice to see that What We Did comes labeled a "pop" album, with Dan Matz from Windsor for the Derby writing a majority of the lyrics and lending his Sam Prekop-inflected voice to Gira's two-chord symphonies. If it weren't for the trademark Young God packaging (digipack w/solid san-serif header and footer), it could easily pass for an early Drag City or Secretly Canadian release.
Opener "Packing the Locks" hardly introduces so much as spills out the album with simple guitar lines and Matz's plaintive vocals withdrawing the jazz-turn affectations of Prekop and leaving the sensual breathiness. "Is/Was" takes up this slack, turning a borrowed blues melody (a la early Spiritualized) and stretching its pattern over long measures. Somewhere, the chorus ambiguously drifts in -- a trick employed often in the Gira camp -- as Matz's cigarette-torn vocals mesh with the back-up to form a series of drone lullabies. This reaches its peak on "Sunflower," which mutates from oft-repeated chorus into chiming and scraping bliss-out in a way that mirrors the best moments of Songs: Ohia's Ghost Tropic.
The closing track, "The Brightest Star," almost sounds like a contemplative Ladybug Transistor slow-jam, all analog warmth and sweet, soaring harmonies buried deep in the mix. It's definitely pop -- and Matz's tendency to avoid emulating Gira's grim wails contributes to its accessibility -- but dirty pop (something N'Sync was never too convincing about).
The rewards of this record aren't reaped through immediate digestibility, but through repeated suggestion. Still, this is by far the most palatable of Gira's growing mass of output and an indication of continued innovation in collaborating with those whose moods, ideas, and melodies augment his own dark brilliance.

      
Artigo promocional escrito por José Pacheco:

Michael Gira
«O Grande Aniquilador»

«... we may forget that a written word is an image and that written words are images in sequence that is to say moving pictures. So any hieroglyphic sequence gives us an immediate working definition for spoken words. Spoken words are verbal units that refer to this pictorial sequence. And what then is the written word? My basis theory is that the written word was literally a virus that made spoken word possible. The word has not been recognised as a virus because it has achieved a state of stable symbiosis with the host...»

William S. Burroughs
in «Feedback from Watergate to the Garden of Eden»

    

Perfilar com exactidão os contornos da carreira e do resultado artístico dos mais de vinte anos de actividade de uma personagem tão prolífica como MICHAEL GIRA é uma tarefa quase impossível.
Situamo-lo em primeiro lugar em Los Angeles, cidade nada propicia às inquietações artísticas do nosso protagonista, onde escreve alguns artigos para a revista Slash e forma parte da, segundo ele "estúpida banda punk", The Little Cripples. Passado pouco tempo, farto da falta de perspectivas que as experiências musicais em curso lhe possibilitam, decide mudar-se para Nova Iorque. Numa primeira fase a cidade não lhe agrada completamente, pois encontra-a "cheia de cimento e vidro", tendo como maior defeito o possuir uma tão grande quantidade de pessoas e estar vazia de ideias novas no referente à música, que era precisamente o que ele procurava.
Tudo isto sucede em 1980, e apesar da situação em menos de dois anos alia-se a dois jovens que sentem a mesma necessidade de libertar toda a força e ferocidade interior. Michael ergue-se como o líder indiscutível de um grupo que ultrapassa os limites do convencional, que transmite o conceito mais duro e extremo da nossa essência mais primária, que é essa fera indomável que ninguém se atreve a mostrar. Apesar de tudo isso, o grupo e baptizado como SWANS.
Gira contribui com a voz e o baixo, Jonathan Kane com a bateria, Bob Pezzola com a guitarra e Daniel Galli-Duani com o saxofone. Em 1982 dão à luz quatro temas (conhecidos como "Swans E.P.") plenos de força musical e expressiva. Curiosamente esta primeira gravação possui mais ritmo e mais estrutura musical que a maioria dos trabalhos subsequentes do grupo, como testemunha, por exemplo, o inigualável tema, "Speak". Antes disso em colaboração com Jonathan Kane já havia publicado o E.P. "Labor" sob o nome de Circus Mort, que muitos consideram um estado embrionário do que viria a ser os Swans.
No ano seguinte editam o seu primeiro LP "Filth", desta vez sem Daniel nem Bob, que são substituídos por duas figuras que se revelariam de grande importância, Roli Mosimann (que de futuro assumirá um papel importante nos Foetus) e Norman Westberg (que virá a trabalhar com pessoas da importância de Lydia Lunch, de cuja colaboração destaca o famoso tema "Stumbo"), sem menosprezar a contribuição do último cisne Harry Crosby. Agora sim, agora é quando nos sentimos afogados pela densa lentidão dos ritmos dos Swans. As letras remetem para o conceito de poder, e por contradição, à submissão, à superioridade dos fortes sobre os débeis, e a como os primeiros impõem a vontade e ideias pela violência, não necessariamente física... A música que os Swans criam possui uma tal força que não dá opções, encurralando-nos sem saída possível.
Em Novembro de 1982 os Swans tocam ao vivo com os Sonic Youth na Savage Blunder Tour; no ano seguinte Gira escreve a letra de "The world looks red", editada em "Confusion is Sex", segundo album da banda amiga, e os Swans incluem o tema "Weakling" na compilação "Speed Trials" da editora Homestead Records, no qual também participam os Sonic Youth e a Lydia Lunch.
É importante contar com Daniel Gira, irmão de Michael, que colabora desde primeira instância com o grupo, por vezes na produção e arranjos, e inclusivamente como membro activo em alguns albuns e concertos.
Estávamos em 1984, e as colaborações para o novo album acentuavam-se, Lee Ronaldo (Sonic Youth) tira as fotografias para o disco e Jim Thirwell ou Clint Ruin, como queiramos chamá-lo, participa como musico adicional. Um dado relevante é que por esta altura os sons dos Swans começam a fazer-se ouvir na Europa. Assinam pela editora K.422, filial da Some Bizzare, na qual figuram outros artistas malditos Europeus como os Coil, os Einstürzende Neubauten, os Test Department,... Assim é editado o terceiro vinyl do grupo sob o nome de "Cop". Este E.P. supõe a confirmação da postura adoptada nas duas publicações anteriores. Uma vez mais a música é pesada, forte, com ritmos lentos e contundentes, letras obscenas perspectivando a obtenção do poder, do controlo,... O começo, com "Half Life", não deixa lugar a dúvidas: é drástico, não podia ser melhor!
No mesmo ano os Swans publicam outro E.P., "Young God". A temática é de novo similar, o prazer físico do amo contra a vontade do submetido, a dominação do escravo, a marcação do território... tomemos como exemplo o tema "Raping A Slave". No final do ano, princípios de 1985, é editado o primeiro album ao vivo, o não oficial duplo LP com o incrível nome de "Public Castration Is a Good Idea", que inclui temas antigos juntamente a outros de publicação futura. Data desta altura um episódio curioso, durante uma actuação do grupo na Suíça, o jovem engenheiro de som ficou tão impressionado com o que viu que tomou a firme decisão de formar um grupo e fazer também ele música. O jovem chamava-se Franz Treichler e o grupo que viria a formar chama-se Young Gods, devido ao nome do E.P. dos Swans, sendo que Roli Mosimann produziu alguns dos primeiros trabalhos do grupo.
A estrutura musical do grupo começa então a mudar e nem todos aceitam essa mudança. Crosby e, o aparentemente imprescindível, Mosimann abandonam a banda, fundando este último juntamente com Clint Ruin os Wiseblood. Estes são substituídos por vários músicos, entre os quais destacam Ted Parsons e Ronaldo Gonzalez.
Gira participa na compilação "A Diamond Hidden in the Mouth of a Corpse", com o tema "Game" (onde recita a letra de "Your Game" de "Body to Body, Job to Job"). A compilação inclui ainda artistas como os Coil, Diamanda Galás, Sonic Youth, William S. Burroughs,... Publica também um spoken word com a Lydia Lunch, "Hard Rocks", versando principalmente temas urbanos.
Numa fase tão produtiva, Gira sente a necessidade de canalizar a sua ânsia criativa, dotando as suas canções de melodias mais cuidadas; decide assim atender a aspectos da composição que até agora eludira. Os temas possuem agora uma estrutura mais firme, as letras são mais meditadas, não tão espontâneas, e dá-se uma novidade crucial: o totalitarismo criativo de Gira é derrubado pela aparição da sua musa, a mágica Jarboe, que de momento apenas contribui com a voz e em algumas performances. A entrada de Jarboe para a formação dos Swans coincide com o encetar de uma nova fase musical do grupo, muito mais cuidada, com um cariz mais experimental, conceptual, ambiguo, sensual,... o poder fica totalmente de fora.
O primeiro fruto da nova formação dos Swans é o maxi "Time Is Money", que inclui para além de duas versões do tema homónimo, o tema "Sealed In Skin". Este maxi supõe o primeiro sinal da mudança na carreira musical do grupo. Ainda em 1986, publicam o novo LP, intitulado "Greed" e o maxi "A Screw" (do qual gravam o muito pouco conhecido video "A Long Screw"). Como assinalado acima, já se notam alguns rasgos diferentes, a asfixiante lentidão rítmica, densa e envolvente, transforma-se na criação de temas mais rápidos, mas que ainda assim nos influenciam quase da mesma forma e nos inspiram quase os mesmos impulsos e estados anímicos de outrora. Com o final do ano vemos ainda surgir um novo album, "Holy Money", que juntamente com o album anterior e os maxis correspondentes forma um conjunto intimamente ligado quer pelas novidades musicais que os quatro partilham, quer pela temática das letras, sempre em relação à obtenção do poder (monetário neste caso), quer em relação às capas (todas utilizam o símbolo do dólar). Quase não é necessário dizer que Gira aponta que o verdadeiro poder se obtém pelo dinheiro: pode-se comprar objectos, sexo, até as pessoas,... Continuam a dar concertos tanto nos Estados Unidos como na Europa, dos quais, oficialmente foi editado um, chamado "Real Love", que inclui temas do quarteto discográfico anteriormente mencionado. Os concertos deixam marcas indeléveis na audiência que fica profundamente impressionada com um Gira descomposto, semi-nu e descalço, agitando-se compulsivamente, dando um espectáculo brutal onde teatraliza todos os conceitos extremos que até então a música do grupo versa.
Em 1987 surge um fenómeno maravilhoso, ou como queira chamar-lhe quem melhor possa qualificar um trabalho como "Children of God". Para além disso a formação já se encontra consolidada: Gira, Jarboe, Westberg, Parsons e Algis Kizys (colaborador habitual de Glen Branca) são os criadores de um album que na minha modesta opinião é irrepetivel. "Children of God" fica de fora de qualquer época ou mudança musical dentro dos Swans. A heterogeneidade de conceitos, a mistura de estilos e formas de entender a música, tornam-no ainda, se possível, mais interessante. Temas tão selvagens e duros como "New Mind" (primeiro e único maxi do album) ou "Like a Drug" contrastam com os intimos "Trust Me", "In My Garden" ou "Blackmail", estes dois últimos cantados angelicalmente por Jarboe, e temas como "Children Of God" ou "Blood And Honey" que escapam inevitavelmente a qualquer adjectivação. Depois de publicar mais um album ao vivo, desta feita com o nome de "Feel Good Now", rompem radicalmente com esta etapa, trocando a agressividade pela introspecção.
Com o final das gravações de "Children Of God", Gira e Jarboe, sentem-se plenos de ideias e de criatividade. Estão ambos de acordo que o novo universo em exploração tem pouca relação com o dos Swans. Nesta altura surge um dos mais interessantes e importantes projectos paralelos á actividade dos Swans, falamos obviamente dos SKIN. O motivo fundamental da divisão entre Swans e Skin, é o total abandono da visceralidade e poder dos Swans em favor de trabalhos mais serenos, equilibrados e pessoais. Decidem dar o nome de Skin (pele) devido a que ambos estão convencidos da importância que este tecido tem para o funcionamento do ser humano. Consideram-no como mais um orgão, como a interface entre o interior e o exterior do indivíduo. Sentem-se atraídos pela sua capacidade de ser estimulada e reagir perante o frio, a dor, a fricção,... Com a ajuda de músicos adicionais, que nada têm a ver com os Swans, gravam o primeiro registro, "Blood, Women, Roses", em 1987. Enquanto neste album a presença de Jarboe se sente como mais preponderante, no seguinte, de 1988, "Shame, Humility, Revenge" é Gira que controla as operações. A música possui maior intensidade, preenchendo a totalidade do espaço, fazendo fluir os sentimentos. Destacam-se temas como "Nothing Without You" que constitui uma das melhores definições de amor alguma vez escritas, ou "24 Hours" em que Michael faz uso de todas as suas potencialidades vocais. Por último, em 1990, sob o nome de The World of Skin editam o fantástico "Ten Songs for Another World", que como facilmente poderíamos supor só pelo titulo é quase indefinível. Agora juntos Gira e Jarboe, fazem um exercício perfeito de autoconhecimento e de estudo interior, falando-nos de relações pessoais e dos sentimentos que estas encerram, e sobretudo das suas vivências. "Black Eyed Dog" é por ventura o tema que mais chama a atenção, pela sua imprevisibilidade. Outros temas a salientar são por exemplo "I'll Go There, Take Me Home", "Everything For Maria" ou o lindíssimo "Dream Dream". De notar ainda a magnifica capa plena de detalhe e ironia. Antes deste último disco havia sido editada a colectânea dos dois primeiros trabalhos também intitulada "The World of Skin".
Retomando o caminho dos Swans, chega-se então ao ano de 1988, em que editam uma versão do clássico dos Joy Division "Love Will Tear Us Apart", musicalmente soberba, incluindo uma versão cantado por Gira e outra por Jarboe. No entanto, novidade das novidades, o tema é acústico e bastante ritmado, capaz de atrair a todo o tipo de audiências, tudo isto sob a alçada da editora Mute. Esta nova mudança de direcção musical afasta alguns dos fans mais radicais que apelidam o grupo de vendido, no entanto a maioria sabe reconhecer que é apenas mais uma fase, em que se pretende cuidar a produção até o mais mínimo detalhe, e porque não encetar novos caminhos, reacção natural e necessária a todo o grupo criativo e talentoso que se preze. É ainda produzido um video promocional para este tema.
Depois do êxito alcançado com o maxi anterior, surgem em 1989 uns Swans renovados, que para além de Gira, Jarboe e Westberg inclui uma série de músicos tão talentosos como Bill Laswell (que também produz o novo disco), que editam o excelente album "The Burning World". Antes disso já havia sido editado o single "Saved", de capa semelhante, com uma fotografia lindíssima de um Lírio tirada pelo fotografo Robert Mapplethorpe. É agora tempo de suavidade, de sons relaxantes, e de vozes doces que nos fazem aprofundar nas letras, que são agora puramente sentimentais, falando de amor, de solidão, dos sentimentos e dos medos mais intimos do ser humano. Trata-se de um trabalho muito homogéneo e de teor principalmente acústico. Temas como "I Remember Who You Are", "Can't Find My Way Home", ou o ritmado "Mona Lisa, Mother Earth" são apenas alguns dos muitos a destacar. Por essa altura editam ainda o maxi limitado para o tema "Can't Find My Way Home" e no ano seguinte mais um duplo LP ao vivo, dedicado à digressão de "The Burning World" chamado "Anonymous Bodies In An Empty Room".
No ano seguinte surge mais um album, "White Light From the Mouth of Infinity" desta feita. O que primeiro chama a atenção é a capa, com uma ilustração do artista Deryk Thomas, que continuará a colaborar com os Swans em edições futuras. A intensidade musical dos Swans continua latente após sofrer uma extraordinária metamorfose que a faz mais compreensível, as emoções são agora transmitidas de modo mais enfatizado, simples e claro. Majestosidade é talvez a palavra que melhor define a nova faceta dos Swans, como facilmente se percebe em temas como "You Know Nothing" ou "Miracle Of Love", ou já fora de qualquer esquema anteriormente concebido, o profundíssimo poder comunicativo e a extrema simplicidade de um tema como "Love Will Save You" (do qual é extraído mais um maxi). No final do ano é ainda publicada uma nova colectânea, a já referenciada "Body to Body, Job to Job".
No que diz respeito à formação, para além dos habituais, destaca-se a colaboração de Clinton Steel, Larry Seven e Adam Jankowsky, e de uma forma ou outra Daniel Gira, J.G.Thirlwell e Fabio Roberti (este último principalmente em questões estéticas).
Chegamos agora à vez de outro dos "grandes". É a vez de "Love Of Life", album "irmão" de "White Light From the Mouth of Infinity", que dispõe mais uma vez de uma capa ilustrada por Deryk Thomas com o mesmo motivo dos "coelhinhos". Mais uma vez é difícil destacar temas, apenas para mencionar alguns aqui ficam os nomes de "The Other Side Of The World", um tema de profundo misticismo, ou "No Cure For The Lonely" (que apenas aparece na edição em CD), ou ainda o tema homónimo (que dá nome ao maxi seguinte, que inclui outro versões de outro dos grandes temas do disco, "Amnesia" que nos fala da degradação da vida, do meio ambiente, da política). Os Swans podem ter possuído mais força mas poucas vezes terão possuído tanta beleza. Surge agora o inevitável album ao vivo, "Omniscience" de seu nome, onde é destacável as fantásticas versões de "Mother's Milk" e "Omnipotent".
Após um longo período em digressão, de algumas colaborações (destacando-se a com os Pigface no album "Notes from the Underground"), de algumas reedições, do album ao vivo "Kill the Child" e do maxi "Celebrity Lifestyle", eis que em 1995 é editado "The Great Annihilator". Trabalham desta vez com Martin Atkins (colaborador habitual de Trent Reznor e eventual de Genesis P. Orridge), e volta a haver de tudo: temas frios, temas lentos, temas selvagens, letras tristes, letras terríveis, violência, melancolia,... Temas como "I Am The Sun", "Blood Promise", ou "Where Does a Body End" são inesquecíveis para todos os que algumas vez escutámos este disco.
Por esta altura vemos surgir o primeiro trabalho em solitário de Michael Gira, trata-se de "Drainland", que é etiquetado sob o nome de Swans related Project, e que dispõe como irmão gémeo o album a solo de Jarboe "Sacrificial Cake", colaborando ambos nos albuns um do outro respectivamente. O que destaca deste album é o intimismo com que todos os temas são abordados. A produção ficou a cargo de Bill Reiflin (outro dos colaboradores habituais dos Swans).
O ano de 1996 assinala o ano terminal do projecto Swans, depois da edição do MCD "Die Tur Ist Zu" de cuja sessão de gravação viria a surgir também o album duplo "Soundtracks for the Blind". É difícil falar de um disco como "Soundtracks for the Blind" sem parecer tendencioso. Basta dizer que por mais do que uma vez o ouvi apelidar do melhor disco da década. Trata-se de um disco grandioso, pleno de intensidade e dramatismo, no qual se incluem temas instrumentais, temas ao vivo, sons electrónicos, baladas, narrações, temas épicos,... Temas como "Helpless Child" com a sua poderosa mistura de extrema desolação e coragosa afirmação de vitalidade, o tocante "How They Suffer" que contém um monólogo do pai de Gira sobre a perda de visão, "The Sound" como cerca de 13 minutos de esplendor sónico, o excelente instrumental "Blood Section",... Simplesmente fantástico!
Desde a edição da opus final dos Swans, surgiram ainda o E.P. "Failure", o single "I Am the Sun", o duplo CD ao vivo "Swans Are Dead", a compilação "Various Failures" e uma série de reedições (das quais destaco a facto de Gira mudar frequentemente o alinhamento, remisturando, subtraindo ou acrescentando temas, demonstrando mais uma vez o seu perfeccionismo e capacidade criadora).
Mas se o natural medo se instalou entre os fans com a separação do grupo, rapidamente os medos se mostraram infundados, pois quer a solo, quer com os seus mais recentes projectos Michael Gira tem continuado a produzir obras de arte de indubitável valor.
Comecemos pelo trabalho literário de Gira. Para além de numerosas contribuições para revistas e fanzines, Gira publica em 1994 o seu primeiro livro "The Consumer". O livro é uma colecção de pequenas histórias com títulos tão eloquentes como "Why I Ate My Wife", ou "The Young Man Who Hid His Body Inside A Horse, or, My Vulvic Los Angeles", ou ainda "Raping A Slave", e assim até contar o número de quarenta e sete contos, que variam em dimensão desde dezoito páginas até nove frases. A respeito do livro Nick Cave disse: "This is repulsive writing. Brilliant, disciplined and repulsive writing...". Com base neste livro viria a publicar em 1997 o spoken word "The Somniloquist". Ainda no decorrer de 1994, participa no livro de homenagem a H.P.Lovecraft intitulado "The Starry Wisdom: A Tribute to H.P. Lovecraft" ao lado de nomes como J.G. Ballard, William S. Burroughs, Alan Moore ou Robert M. Price.
Em 1998, inicia as operações de um novo projecto, os Body Lovers, com a edição de "Number One of Three" (dos quais os outros dois ainda não viram a luz) contando com a ajuda dos já conhecidos Jarboe, Bill Rieflin ou Norman Westberg e de uma quantidade de novos colaboradores tais como Mika Vainio ou Kris Force. O disco é maioritariamente instrumental e cobre uma enorme gama de sonoridades, desde o drone, a sonoridades mais ambientais,... De salientar também o trabalho gráfico da artista Nicole Boitos. Como complemento a este disco surge ainda o "irmão bastardo" com uma sonoridade bastante mais experimental, harsh, quase noise intitulado "Body Haters".
Chegados a 1999, encontramos o limitado "Benefit CD - Jarboe Emergency Medical Fund" gravado ao vivo no Tonic em Nova Iorque (local onde é habitual ver actuar nomes como Current Ninety Three, John Zorn, Ikue Mori, Elysian Fields,...) e que tem como objectivo criar um fundo de apoio para a recuperação de Jarboe, que no final do ano anterior sofrera um grave acidente. Este ano vê surgir ainda o último projecto de Gira, os Angels Of Light. Este projecto aparece como a continuação natural do trabalho desenvolvido com os Swans. Os dois discos publicados até à data "New Mother", de 1999, e "How I Loved You", de 2001, são duas demonstrações do vigor criativo de Gira, tendo o segundo sido aclamado pela critica como um dos melhores discos do ano.
Finalmente resta-nos falar dos dois mais recentes trabalhos discográficos de Gira, o limitado "Solo Recordings at Home" e a colaboração com Dan Matz sob o titulo de "What We Did". Enquanto que o primeiro se trata de uma produção caseira (como o nome indica) em que a produção foi descurada em detrimento de uma maior espontaneidade, sendo dirigido especialmente para fans (não é à toa que se trata de um CDR apenas disponível via mailorder), o segundo é um disco mais cuidado utilizando uma panóplia de instrumentos que vão das guitarras acústicas e eléctricas, ao baixo, vários órgãos, piano, sintetizador, diversos tipos de percussão, harmónica, banjo, etc... Fazendo-nos lembrar por vezes as composições do final de carreira dos Swans.
Paralelamente ao seu trabalho como autor, nos últimos tempos dedicou-se também a tarefas de produção, dedicando-se em especial às bandas a editar pela sua Young God Records, tais como os Flux Information Sciences, os Calla ou David Coulter.
Eis que agora, mais do vinte anos passados sob o encetar da sua carreia artística Michael Gira, vem até Portugal para o seu primeiro concerto em terras Lusas. Traz na bagagem os mais recentes trabalhos, mas promete revisitar alguns dos temas mais emblemáticos da sua longa carreira. Certamente um concerto a não perder!

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Última actualização: Terça-feira, 12 de Fevereiro de 2002